domingo, 17 de outubro de 2010

Sem amor...

A inteligência sem amor, te faz perverso.
A justiça sem amor, te faz implacável.
A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.
O êxito sem amor, te faz arrogante.
A riqueza sem amor, te faz avaro.
A docilidade sem amor, te faz servil.
A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.
A beleza sem amor, te faz fútil.
A autoridade sem amor, te faz tirano.
O trabalho sem amor, te faz escravo.
A simplicidade sem amor, te deprecia.
A oração sem amor, te faz introvertido e sem propósito.
A lei sem amor, te escraviza.
A política sem amor, te deixa egoísta.
A fé sem amor, te deixa fanático.
A cruz sem amor, se converte em tortura.
A vida sem amor... não tem sentido!

Minha mais apaixonante fuga.

Vamos embora daqui, vamos morar em Floripa, Búzios, Madri ou ir pro Moçambique. Que luz, morar com pais nem rola mais, aqui não tem sossego. Tenho medo, sabia? Medo de andar na rua, de blitz, da língua venenosa do povo, medo de não conseguir decorar um texto, chegar atrasado, de entalar a garganta com um caroço, pararem de fabricar cigarro, de não ter Caras na sala de espera do dentista, de voltar a moda do biquíni asa-delta, de acabar o papel-higiênico, de, no chuveiro, alguém ligar a água quente na cozinha. Ah, eu vou embora. Vocês não mudam, as coisas não mudam, o Brasil tá violento! Vou fazer mestrado no Peru ou vender coco no Rio Grande do Norte. Você vem?

Por que não?

Por que você não pega o ônibus que passa na sua rua? Você conhece o itinerário dele? Vá até o ponto final, para ver como é a cidade que ele atravessa diariamente. Volte até o ponto inicial.

Por que você não prepara uma viagem para conhecer a cidade em que seus avós nasceram? E, se der, por que você não os leva?

Por que você não aprende a língua deles, caso sejam imigrantes estrangeiros?

Por que você não vai conhecer aquele parente de quem ouviu muito falar, mas quem nunca viu pessoalmente?

Se você tem empregada, por que não dá um beijo nela, assim que levantar da cama? Por que não aceita aquele convite de conhecer a casa dela? Marque a visita para o próximo domingo. E leve o vinho mais caro que encontrar.

Por que você não abraça o seu porteiro e combina de beber uma cerveja depois do expediente com ele?

Por que não vai conhecer a casa das máquinas do seu prédio com o zelador?

Por que não abre um champanhe no teto do prédio, com ele?

Veem o sol se pôr.

Se você mora em casa, por que não pergunta para o vigia da sua rua onde ele nasceu, como foi a sua infância, se é casado e tem filhos? Por que não o convida para jantar antes do serviço? Cozinhe pra ele. Como se cozinhasse para o rei.

Por que você não liga agora para os seus pais e não diz o quanto os ama?

Por que não vai hoje à noite comer uma pizza com eles e folhear álbuns de infância, reler cartas, ouvir histórias?

Por que você não abre o armário do seu pai e olha roupa por roupa, gaveta por gaveta, como ele se veste atualmente?

Por que você não dorme na antiga caminha em que dormia?

Por que você não faz as pazes com os seus irmãos? Convide todos para irem ao circo. Pague pipoca para eles. Por que não vão todos depois aos bastidores conversar com os trapezistas?
Por que você não paga pipoca para todas as criança do berçário vizinho, que fazem uma algazarra incrível na hora do recreio? Por que você não aproveita e brinca com elas?

Por que você não pode ou não quer?

Por que você não visita a sua escola primária?

Ande pelos corredores e tente reconhecer alguns professores. Por que você não se senta no banco escolar de onde assistia as aulas? Por que você não procura na biblioteca o seu nome nas fichas de livros que leu no colegial?

Peça o mesmo sanduíche que comia na lanchonete da escola. Por que não aproveita e paga para todos os alunos presentes uma rodada de milk-shake?

Lembra o quanto você era duro e de como era caro tomar um?

Por que você não liga já para a sua primeira namorada ou namorado e marca um café? Marca para um sábado qualquer.

Por que você não liga para a segunda namorada ou namorado e relembra todas as besteiras que fizeram, os apelidinhos que se deram, os presentes que trocaram?

Por que você não escreve uma carta?

Por que você não compra selos e posta a carta numa caixa de correio que resiste ao tempo?

Você sabe onde tem uma caixa de correio perto?

Por que você não escreve uma carta para antigos namorados ou namoradas relembrando todas as coisas boas que vocês viveram?

Por que você não escreve uma carta para você mesmo, contando todas as besteiras que fez na vida, listando os arrependimentos?

Coloque num envelope selado, enfie na caixa de correio mais próxima.

Por que você não começa hoje a ler o livro que sempre teve vontade, mas que nunca teve tempo?

E por que não decora a letra daquela música que ama?

Por que não aproveita e decora o número do seu cartão de crédito novo?

Por que você não vai a uma praça rolar na grama?

O que o impede de subir na gangorra ou balanço?

E numa árvore?

Siga as formigas.

Escute abelhas.

Reparou que um adulto só volta a ser criança na velhice?

Por que é tão difícil quebrar os hábitos, fugir do padrão, deixar o óbvio de lado? Por que ignorar o incomum?

E, o pior de tudo, por que a rotina nos é fundamental?

Por que você não poda as árvores da sua quadra, por que não planta flores nos canteiros da sua calçada, por que não adota um gato?

Por que você não passa o dia na janela, observando o movimento e a rotina dos vizinhos?

Falta de tempo?

De interesse?

Por que uma criança sempre ri?

Por que não arrumar os livros em gênero, os discos em ordem alfabética, as roupas por estilo? Por que não doar agora aqueles livros, discos e roupas de que não gosta? Por que não passar o dia desenhando? Por que não desenhar na parede da sala? E que tal comer um tomate inteiro, como se fosse uma maçã? Ou sucrilhos, grão por grão? Lamba o prato. Enfie o dedo no bolo. Use a colher do açucareiro, para dispersar o açúcar no café.

Vá ao estádio de futebol e se senta na arquibancada com a torcida rival.

Torça, um dia apenas, para um time que nunca imaginou que existisse.

O improvável é tão impossível assim?

Durma olhando para as estrelas, coma sem usar os talheres, corra para ver os cavalos acordarem, converse com os moradores de rua do bairro, entre no metrô de costas, cante alto uma música no vagão, vá à varanda mais próxima e uive com os cachorros na madrugada.

Por que o diferente amedronta?

Vá ao aeroporto ver avião subir.

Conte quantas nuvens tem agora no céu. Tente desvendar qual animal elas lembram?

Abra os braços, respire fundo, feche os olhos, sinta no rosto a umidade da brisa, escute o vento, a cidade viva.

Diz: “Como é bom tudo isso…”

Agora repete.

Por que não ser piegas?

Por Marcelo Rubens Paiva

Acordar. Por que acorda?

Para trabalhar. Por que trabalha?

Para ganhar a vida. Para que dinheiro?

Sustentar.

O quê?

A casa, a luz que dá luz, a água que banha, o café da manhã, o jornal diário, o gás do café, o condomínio que garante um elevador que funciona, que o leva a uma vaga demarcada na garagem, onde um carro que dá a partida, pois tem uma bateria nova, combustível no tanque, injeção eletrônica calibrada e roda sobre quatro pneus novos se encontra.

E sustentar a segurança que o protege daqueles que queiram parte dos seus bens.

Que abre a guarita quando encosta o carro, acena e deseja bom-dia.

Para a rua vai, com o seguro do carro em dia, o que evita acidentes e gastos desnecessários do fruto do seu trabalho.

Trabalhar para pagar impostos e ter uma rua bem recapeada, faróis de trânsito que organizam a ida ao trabalho dos vizinhos e possibilita manter o patrimônio próprio e as vidas alheias.

Pintam faixas de pedestres, para os que não têm patrimônio suficiente possam atravessar as ruas e, com segurança, se dirigirem a uma estação de transporte público para, como ele, ganhar a vida.

Dá passagem para carros com sirenes ligadas. São policiais que garantem a segurança pública dos que trabalham ou não, baseados em códigos e leis que o Estado criou para que possamos, em ordem, trabalhar.

Uma ambulância também passa. Lá vai nosso imposto sendo utilizado para amainar dores, salvar vidas, dar à luz outro pequeno ser que, depois de educado e formado, estará conosco no mercado, para acordar e trabalhar, e talvez disputar a nossa vaga por um terço do salário, o fruto do trabalho.

Ou, se tudo der errado, e as más influências o levarem para os caminhos do crime, afanar partes do patrimônio alheio, burlando a segurança privada na guarita, que deu bom-dia minutos antes.

Até os que zelam pela segurança pública o trancarem numa instituição sustentada pelos impostos que são gerados pelo nosso trabalho, atividade exercida após o acordar.

Alguns preferem se exercitar antes da jornada de dez horas, com duas horas de almoço.

Pagam academias, porque acordamos, trabalhamos e temos dinheiro, e queremos manter a saúde em bom funcionamento, para acordarmos e trabalharmos.

No trabalho, ganhamos a vida. Em baias, salas envidraças, fábricas barulhentas, com apetrechos que garantam a segurança do trabalho, para que possamos trabalhar sem nenhum membro do corpo saudável decepado, e todo corpo possa operar com dedicação a máquina que gera produtos, faturamento e salários.

Se o corpo estiver intacto, o produto pode ser aperfeiçoado, o faturamento cresce, e quem sabe o salário aumenta, para quem sabe prepararmos melhor o corpo e a mente para o trabalho.

Almoçamos uma comida rica em nutrientes durante o intervalo de duas horas.

E podemos quem sabe convidar a nova estagiária e pagar a conta. O que a deixaria satisfeita. Demonstraríamos assim a nossa boa educação e gentileza, vocações que agradam seres trabalhadores do sexo oposto (ou do mesmo, dependendo da opção).

Após o trabalho, com um corpo saudável e bem alimentado, e a disposição para encarar horas de lazer, podemos convidar a colega de trabalho para um happyhour, onde outros trabalhadores aliviam tensões do trabalho jogando conversa fora e sorvendo líquidos alcoolizados dentro, que aliviam as tensões da jornada, estabelecem uma comunicação facilitada pela alteação do estado psíquico e furam bloqueios formais que são rígidos, estabelecidos por normas de relações trabalhistas e ambientes de tensão, que buscam aumentar o faturamento para, quem sabe, aumentarem os salários e as participações no lucro.

A substância alcoolizada desloca a timidez para longe.

Palavras de carinho e sedução são aplicadas, e de repente o casal, ele e a estagiária, colegas de trabalho, começa a expor detalhes de suas vidas pessoais, seus desejos e sonhos, suas carências e necessidades imediatas.

Ambos sabem que a alma precisa estar tão balanceada quanto os pneus e a injeção eletrônica do veículo que os aguarda. Para que possam tocar suas rotinas.

Os corpos exigem providências instintivas de satisfação do prazer eminente.

Pedem para ser acariciados, abraçados, consumidos, esgotados.

Após pagar a conta com fruto do seu salário e oferecer uma carona em seu carro bem regulado, com combustível e seguro pago, o casal se vê pelas ruas bem iluminadas, graças aos impostos pagos, param em faróis que garantam a segurança dos pedestres, escutam uma música romântica na rádio que foi empreendida após uma concessão pública através do Estado que sustentam pelo voto e impostos em dia, algo acontece: está estabelecido um contato olho no olho.

Aproximam seus rostos e se beijam ardentemente.

Sem oferecer riscos a outros trabalhadores que retornam a seus lares.

Então, ele a convida para conhecer o seu lar. Sugestão aceita de imediato.

Em silêncio, encostam na guarita do seu prédio, são saudados pelo porteiro com um boa-noite, seguido por um bom descanso.

Ele encosta na vaga demarcada pelo conselho de condôminos, interrompe o fluxo de combustível do motor, desliga o carro com injeção eletrônica bem regulada, leva-a de mãos dadas ao elevador com a revisão em dia, e sobem para o seu apê.

Exibe alguns bens obtidos graças ao fruto do seu trabalho, abre uma garrafa de vinho cara, resultado da dedicação e participação no faturamento da empresa.

Sorvem o líquido alcoolizado elogiando a safra e a uva que o originou.

Em minutos, estão na cama satisfazendo seus desejos de se tocarem, se consumirem, se possuírem.

Utilizam um invólucro de látex, que os protege de doenças indesejáveis e evita a proliferação da espécie, a criação de novos entes que um dia possam substituí-los no trabalho. Têm poderes para controlar a natalidade do Estado que constantemente se vê obrigado a investir em infraestrutura.

Mas nem entra a madrugada, e ela utiliza um aparelho celular para obter o serviço de um táxi.

Já?

Ela espera por minutos a chegada de uma unidade, despede-se com um beijo e diz:

“Preciso acordar cedo amanhã.”

Para quê?

Para ganhar a vida.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Por João Guimarães Rosa

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é CORAGEM!"