Ceias de Natal são o hábitat preferido de espécies que hecatombe alguma ameaça de extinção: os tipos folclóricos familiares.
Entra ano, sai ano e a única coisa que muda é o penteado de alguns personagens. Às vezes, nem isso. O cunhado se apossa do videokê (cunhados adoram videokês), sobrinhos berram pela casa e sempre chega uma prima que ninguém estava esperando. Pior, carregando um presentinho - justo ela, tão sumida que nem entrou no amigo secreto familiar. Ah, é. Tem isso: o amigo secreto familiar.
Em meio ao blablablá de paz entre os homens, o Natal embute uma ameaça à estabilidade emocional de quem se julga bem resolvido e quase em condições de ter alta da terapia. Juntos, pais, mães, tias, primos - e cunhados - transformam qualquer festa num evento que beiraria o trágico se não mergulhasse no cômico.
Tem aquele tio sofredor e tia animada. Ele sempre sente alguma dor, que os médicos insistem em ignorar; ela é um escândalo, bebe muito, ri alto e puxa o corinho de "discurso, discurso, discurso" em toda história contada.
Temos o crítico e o corpo mole, nada neste mundo existe sem que o primeiro tenha opinião, emitida em voz alta, até para quem não quer ouvir; o segundo jura que vem ajudar a montar o som, instalar a lona e carregar o engradado de champanhe. Chega bem na hora da festa e só sai carregado.
Ah! E a passiva-agressiva, papel geralmente exercido por uma tia mais velha ou uma prima abandonada pelo marido. Para ela, uma pessoa simples, qualquer coisa está bem, tudo é muito bom, o pessoal é bonzinho. Pena que sirvam comida que faz mal a ela, que ninguém toque as músicas de que ela gosta...No mundo ideal, todos adivinhariam seus pensamentos.
Neste ambiente adorável ainda temos o brucutu e a enjoada. Representados respectivamente, por uma barriga de tanquinho e cérebro de tábua de passar, ele carrega geladeiras e barris de bebida, só para que notem seus bíceps; ela come, bebe e troca presentes, mas diz que comida boa, bebida boa e presente bom só numa festa a que foi, muito tempo atrás. "Aquilo é que era festa", suspira.
Encontra-se ainda nesse antro o exibido. Para ele, famosos não têm sobrenome. Sua frase preferida é "Eu falei com o Zé", referindo-se a algum bacana do poder; ela fica num ponto estratégico e não perde um só lance da festa, devidamente comentado a seguir.
O Teen Emburrado e a Alcoviteira: Ele se comunica por grunhidos, acha tudo um tédio e só dá sinais de vida na hora da ceia; a grande ameaça a ele é a Alcoviteira, cujo vocabulário básico tem três frases: "Como você cresceu", para o teen; "Quando você se casa?", para os solteiros; e "Quando vêm os filhos?", para os casados.
A Grande Vítima e o Casal Nem Aí: Esse é o papel da mãe, ninguém ouse ameaçar seu reinado, justo ela que fez sozinha toda aquela comida, sem a ajuda de ninguém e sem esperar cumprimentos, porque ninguém liga mesmo... O casal de primos vem de um bairro distante, tem cinco capetas, chamados de filhos, que destroem a casa em que estão, enquanto os pais aproveitam a festa.
Não seria tão nobre e tão belo tais natais se não fossem dessa maneira. O que não se pode e nem se deve deixar de existir é a união das famílias e o amor que sentem entre si, não importa de que maneira isso acontece, o que verdadeiramente é necessário é que haja paz e força para então assim começarmos um novo ano.
Feliz Natal e um belo ano novo.
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